A expectativa pelo início de carreira tem gerado mais dúvidas do que entusiasmo entre os jovens.
Uma pesquisa realizada pela plataforma de empregabilidade Handshake com 1.925 estudantes norte-americanos revelou que 57% dos graduandos de 2025 estão pessimistas com essa fase da vida profissional — um salto considerável em relação aos 49% registrados no ano anterior.
Esse dado alarmante levanta um sinal de alerta para empregadores, profissionais de recursos humanos e educadores.
A transição da formação acadêmica para o mundo corporativo, que já costuma ser repleta de incertezas, agora enfrenta um contexto ainda mais delicado: mercado competitivo, instabilidade econômica e experiências frustradas nos primeiros empregos.
Apesar da pesquisa ter foco nos Estados Unidos, os desafios enfrentados pelos jovens têm caráter global e se refletem no Brasil.
Segundo dados da Catho, 79% dos jovens brasileiros entre 18 e 24 anos não confiam nas próprias habilidades.
Essa falta de confiança impacta diretamente a forma como eles encaram o mercado e suas possibilidades de crescimento.
A seguir, entenda os principais motivos por trás desse pessimismo, o que caracteriza um bom início de carreira e como as organizações podem apoiar esse público em um momento tão crucial da trajetória profissional.
Como deve ser o início da carreira profissional?
O início de carreira marca a transição do universo acadêmico para o mundo do trabalho.
É o período em que os jovens profissionais começam a aplicar seus conhecimentos teóricos na prática, desenvolver habilidades técnicas e comportamentais e descobrir, na vivência diária, quais caminhos desejam seguir.
Idealmente, essa fase deveria ser de descobertas, aprendizado e amadurecimento. No entanto, muitas vezes, é marcada por frustrações.
A pressão para acertar logo no primeiro emprego, a instabilidade de contratos temporários ou a alta rotatividade em cargos de entrada contribuem para sentimentos de inadequação e insegurança.
Para especialistas, um início de carreira saudável envolve:
- Planejamento estratégico: ter clareza de metas e objetivos, mesmo que provisórios;
- Abertura à experimentação: testar diferentes áreas, projetos e formatos de trabalho;
- Apoio e mentoria: contar com lideranças preparadas para orientar;
- Ambientes acolhedores: empresas com cultura de feedback, escuta ativa e inclusão;
- Autoconhecimento: compreender suas próprias motivações, pontos fortes e limitações.
Quais são as 4 fases da carreira?
Compreender as fases da carreira ajuda a contextualizar o início dessa jornada. De modo geral, a trajetória profissional pode ser dividida em quatro etapas:
1. Exploração
Fase inicial, marcada pela busca por conhecimento, experiências e entendimento sobre as áreas de atuação.
É onde ocorrem os primeiros empregos, estágios e tentativas de entender o que realmente faz sentido para o profissional.
2. Estabelecimento
A partir das primeiras escolhas, o profissional começa a se fixar em uma área e a construir sua reputação. É comum a busca por crescimento e especialização.
3. Manutenção
Neste momento, o foco é consolidar conquistas, manter a performance e, muitas vezes, devolver à comunidade profissional com mentorias ou atuação como referência no setor.
4. Desaceleração ou reinvenção
Fase final da carreira tradicional — ou de reinvenção, no caso de profissionais que optam por novos caminhos, como consultorias, empreendedorismo ou transição para outras áreas.
Ao compreender essas etapas, jovens conseguem visualizar que a carreira não é linear e que o início não determina toda a trajetória.
Erros, mudanças de rota e adaptações são naturais e bem-vindas.
“O maior risco é não arriscar. Em um mundo que muda muito rápido, a única estratégia em que a falha é garantida é não arriscar”. Mark Zuckerberg
Por que tantos jovens estão inseguros com o início de carreira?

Há diversos fatores que contribuem para o sentimento de pessimismo:
1. Pressão por sucesso imediato
Em redes sociais, histórias de sucesso precoce se destacam, criando uma falsa sensação de que o progresso deve ser rápido e linear.
Isso gera ansiedade e a crença de que qualquer desvio indica fracasso.
2. Desemprego estrutural
Em países como o Brasil, a taxa de desemprego entre jovens é historicamente mais alta do que a média nacional.
Segundo o IBGE, no primeiro trimestre de 2024, o desemprego entre jovens de 18 a 24 anos chegou a 18,5%.
3. Endividamento e insegurança financeira
O acúmulo de dívidas, como o financiamento estudantil, aliado à dificuldade de conseguir um emprego estável, gera um ciclo de estresse e insegurança.
4. Dificuldade de inserção
Muitos programas de estágio e trainee exigem experiências prévias, inglês fluente e habilidades que nem sempre são acessíveis para estudantes de baixa renda.
Isso dificulta a inclusão de jovens em situação de vulnerabilidade.
5. Falta de preparo emocional
As escolas e universidades nem sempre trabalham competências emocionais, como resiliência, comunicação e autoconfiança.
Com isso, muitos jovens chegam ao mercado sem saber lidar com frustrações, rejeições ou mudanças.
Caminhos alternativos para começar bem
Apesar dos desafios, há estratégias e alternativas que podem ajudar jovens a começarem sua carreira com mais confiança e propósito:
1. Freelancer e projetos independentes
Trabalhar como freelancer em áreas como design, redação, programação ou mídias sociais permite desenvolver portfólio, testar habilidades e gerar renda.
2. Estágios e programas de trainee
Ainda que competitivos, esses programas oferecem boa estrutura para desenvolvimento, com treinamentos, mentorias e rotação por diferentes áreas.
3. Empreendedorismo e economia criativa
Criar um negócio próprio ou explorar talentos pessoais (como arte, gastronomia, produção de conteúdo) pode ser um caminho para iniciar com autonomia e identidade.
4. Planejamento de carreira
Buscar orientação de carreira, fazer cursos de autoconhecimento, mapear áreas de interesse e construir uma narrativa profissional consistente são passos valiosos.
5. Aprendizado contínuo
Cursos online, certificações, workshops e eventos permitem atualização constante e conexão com o mercado.
O papel do RH na construção de futuros possíveis

As áreas de Recursos Humanos têm papel essencial na construção de uma experiência positiva para quem está começando. Algumas práticas que fazem a diferença:
- Processos seletivos mais acessíveis: eliminar exigências desnecessárias e promover inclusão;
- Acolhimento no onboarding: garantir que os novos talentos se sintam parte do time desde o início;
- Mentorias e trilhas de desenvolvimento: oferecer estrutura para que o jovem entenda seus próximos passos;
- Clima organizacional saudável: criar espaços seguros para aprendizado e troca;
- Feedbacks estruturados: ajudar o profissional a se desenvolver com base em retornos construtivos.
Empresas que investem nesse público colhem benefícios em engajamento, inovação e retenção a longo prazo.
Construindo começos mais confiantes e trajetórias com propósito
O início de carreira pode ser desafiador, mas não precisa ser solitário ou desestruturado.
O pessimismo revelado pelas pesquisas, embora preocupante, também é um convite à ação — para que empresas, instituições de ensino e os próprios jovens construam, juntos, caminhos mais humanos, acessíveis e sustentáveis para o trabalho do futuro.Fonte:Exame | “Mais da metade dos jovens é pessimista sobre o início da carreira, segundo estudo”, publicado em 28 de junho de 2024.
