De tempos em tempos, quase sem aviso, algum acontecimento cotidiano traz à tona lembranças da minha infância. São gatilhos inesperados — músicas, cheiros, rostos familiares — que despertam memórias há muito adormecidas. E tudo bem. A única constatação, talvez melancólica, é perceber que nossas lembranças mais recentes parecem estar ficando cada vez mais antigas.
Foi exatamente isso que aconteceu dias atrás, em um estabelecimento comercial da nossa cidade. Logo na entrada, vi um dos gestores da empresa realizando uma tarefa operacional — nada insignificante, mas certamente algo que poderia ser executado por um colaborador de outra função.
Usar um Canhão para Matar uma Mosca
Naquele instante, me veio à mente uma frase ouvida na infância: “Não se deve usar um canhão para matar uma mosca.” A metáfora é clara: usar recursos valiosos de forma desproporcional pode ser ineficiente, ou até contraproducente. Claro que há contextos onde, dependendo do “local da mosca”, até a metáfora parece aceitável. Mas, guardadas as devidas proporções, a mensagem é direta.
Na gestão de uma empresa, a lógica é a mesma: nem sempre é produtivo ver um líder assumindo tarefas que não fazem parte de seu escopo estratégico. A não ser em situações extremas, é claro.
O Papel Real do Gestor na Estratégia Empresarial
Um bom gestor precisa estar focado no que realmente importa: acompanhar indicadores, revisar planos estratégicos, ajustar rotas e liderar times. Como dizia um antigo professor:
“Planejamento deve ser feito a lápis, nunca a caneta.”
Ou seja, é preciso estar sempre preparado para ajustes. O urbanista Lúcio Costa já dizia:
“A única certeza sobre o planejamento é que as coisas nunca acontecem como planejado.”
Esse é o verdadeiro papel da liderança: analisar, adaptar, evoluir. E é praticamente impossível fazer isso de forma eficaz se o gestor está mergulhado em rotinas operacionais.
O Desafio da Alocação Correta de Talentos

Esse episódio revela uma das questões mais sensíveis da gestão de pessoas: colocar a pessoa certa no lugar certo. Ter uma equipe qualificada é essencial, mas não suficiente. É preciso que cada talento esteja na função onde pode gerar maior impacto.
Esse princípio se aplica especialmente à liderança. Muitas vezes, o próprio gestor — ou até o dono da empresa — não é a pessoa ideal para determinada fase do negócio. E tudo bem.
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Sucessão Empresarial: A Armadilha das Expectativas Familiares
Aqui entramos em um ponto delicado: a sucessão nas empresas, especialmente nas familiares. É comum vermos herdeiros assumindo posições de liderança sem preparo técnico ou perfil adequado. A lógica é quase medieval: “O trono é do meu filho, porque é meu herdeiro.” Mas empresas não são reinados.
Na prática, manter alguém incompetente na liderança, apenas por vínculos familiares, é tão prejudicial quanto não se preocupar com o processo sucessório. O pior cenário? Quando a morte ou afastamento inesperado do gestor principal deixa um vazio de comando e a empresa simplesmente desaparece do mercado.
Conclusão: Liderança Eficiente é uma Escolha Estratégica
Empresas de todos os portes e segmentos devem priorizar a gestão profissional, acima de qualquer vaidade pessoal. Ter um bom líder — mesmo que seja um contratado — é mais valioso do que manter o controle absoluto em nome do sobrenome.
Afinal, ser o rei de um reino falido não deve ter a menor graça.
Cíero Gomes Ribeiro
