O recente aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), anunciado pelo governo federal, acendeu um alerta no setor produtivo nacional.
A medida, justificada pela necessidade de reforço na arrecadação pública, tem sido alvo de críticas por parte de economistas, empresários e entidades de classe, que apontam impactos negativos generalizados na economia.
Com isso, o custo do dinheiro aumenta, o crédito fica mais caro e as decisões de investimento se tornam mais restritivas. Pequenas e médias empresas, em especial, sentem os efeitos de forma mais intensa.
Entenda o que é o IOF e por que ele foi elevado
O IOF é um imposto federal que incide sobre diversas operações financeiras, como empréstimos, financiamentos, câmbio, seguros e investimentos.
Apesar de sua origem regulatória, a tributação tem sido usada cada vez mais como instrumento de arrecadação.
Em maio de 2025, o Ministério da Fazenda anunciou um pacote de medidas fiscais que incluiu o aumento da alíquota do IOF de 3,38% para 3,5% nas operações com cartão de crédito e débito internacional.
A expectativa era de que as alterações gerassem um incremento de R$ 20,5 bilhões na arrecadação ainda este ano e de R$ 41 bilhões em 2026.
A decisão gerou forte repercussão entre os agentes econômicos.
Como resposta, parte das medidas foi revista, como a manutenção da alíquota zero sobre aplicações de fundos nacionais no exterior e transferências pessoais para investimento fora do país.
No entanto, outras tributações permanecem em vigor e continuam a pressionar o custo das operações financeiras.
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Efeitos diretos do IOF sobre o crédito e a economia
O economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Felipe Tavares, observa que a função original do IOF era regulatória, com foco em estimular ou desestimular determinadas práticas econômicas.
“Quando esse instrumento passa a ser usado para arrecadação, seu impacto se torna abrangente e prejudicial. Todas as transações financeiras ficam mais onerosas, afetando desde grandes empresas até pequenos comércios”, afirma.
Além disso, o aumento do IOF encarece linhas de crédito, financiamentos e operações bancárias, atingindo diretamente a capacidade de consumo e investimento das empresas.
Isso se traduz em uma pressão adicional em um momento de retomada econômica após os efeitos da pandemia e de instabilidades fiscais.
Empresários adiam planos e enfrentam incertezas
De acordo com o professor de economia do Ibmec-RJ, Matheus Moura, a alta no IOF dificulta o acesso ao capital e gera insegurança para investidores.
“Com o dinheiro mais caro, muitas empresas reavaliam projetos de expansão, aquisição de equipamentos ou contratação de pessoal. Isso impacta o ritmo de crescimento do país e contribui para um ambiente de cautela no setor produtivo”, analisa.
A situação se agrava quando se considera o cenário das pequenas e médias empresas (PMEs), que dependem fortemente do crédito para manter o fluxo de caixa e operacionalizar suas atividades.
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Pequenas empresas sentem o maior impacto
Segundo Rafael Schiozer, professor de finanças da FGV EAESP, os pequenos empreendedores estão mais vulneráveis a oscilações tributárias, já que têm menos acesso a alternativas de financiamento e menor poder de negociação.
“Grandes corporações conseguem captar recursos no mercado internacional ou recorrer a instrumentos mais sofisticados. Já as PMEs contam, quase exclusivamente, com linhas de crédito locais e com custos mais altos”, destaca.
Tributação do risco sacado preocupa varejistas

Uma das mudanças mais sensíveis é a tributação sobre o chamado risco sacado, muito utilizado por varejistas.
Essa modalidade permite que fornecedores antecipem recebíveis a partir da garantia de grandes empresas compradoras.
O novo IOF encarece essas operações, afetando diretamente o fluxo de caixa das empresas.
“Esse modelo é vital para o funcionamento do varejo. Com a incidência do IOF, o custo dessa antecipação sobe, o que deve ser repassado às cadeias produtivas e, em última instância, ao consumidor final”, explica Felipe Tavares, da CNC.
Operações internacionais e o efeito cambial
Outro segmento impactado são as empresas que atuam com câmbio, exportação e importação.
Com o aumento do IOF sobre operações de câmbio, os custos dessas transações sobem, prejudicando a competitividade do produto brasileiro no mercado internacional.
Para Tales Barros, da W1 Capital, esse movimento pode gerar consequências estruturais para a indústria nacional.
“Empresas que já operam com margens apertadas vão ter dificuldades em manter seus contratos e competitividade. Além disso, há o risco de perda de mercado para concorrentes internacionais”, aponta.
Cartões de crédito e o consumidor final
A elevação do IOF também afeta diretamente as operações de cartão de crédito e débito internacional, que passaram de 3,38% para 3,5%.
Ainda, a mudança representa um encarecimento para brasileiros que compram no exterior, viajam ou realizam transações em moedas estrangeiras.
Embora o governo tenha recuado em relação a outras cobranças sobre investimentos internacionais, a tributação sobre cartões se manteve, aumentando o custo do consumo fora do país.
Na prática, isso restringe o poder de compra de pessoas físicas e, em escala, impacta o volume de transações internacionais.
Impacto no mercado interno e na geração de empregos

Ao tornar o crédito mais caro, o IOF tem um efeito cascata que chega às relações de consumo, redução de demanda e desaquecimento de setores estratégicos, como comércio, serviços e indústria.
Empresas menos capitalizadas tendem a reduzir contratações, postergar investimentos e cortar gastos, o que compromete o dinamismo da economia.
Entidades pressionam por revisão da medida
Diante das repercussões negativas, entidades representativas como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Sebrae e a CNC têm se mobilizado para dialogar com o Ministério da Fazenda.
Em comunicados oficiais, os grupos apontam que o aumento do IOF é contraproducente, sobretudo em um cenário de tentativa de estabilização fiscal e retomada do crescimento.
A expectativa é que as medidas sejam reavaliadas e que a política tributária encontre um ponto de equilíbrio entre a necessidade de arrecadação e a manutenção do ambiente de negócios.
Perspectivas e desafios para o setor produtivo
Pequenos empreendedores, em especial, enfrentam um cenário de maiores dificuldades para obter crédito, manter operações e planejar expansões.
Embora o aumento do IOF seja uma resposta do governo à busca por maior arrecadação, seus efeitos sobre o setor produtivo são amplos e profundos.
Se não houver ajustes na política fiscal, o risco é de uma desaceleração generalizada da economia, com reflexos negativos na geração de empregos, consumo interno e competitividade internacional.
O debate em torno do IOF, portanto, deve permanecer em pauta, exigindo diálogo entre governo e setor produtivo em busca de soluções sustentáveis.
