Em um país marcado por contrastes, o empreendedorismo social tem se destacado como alternativa viável e inspiradora para combater desigualdades históricas.
Mais que um movimento pontual, ele se consolida como um modelo de desenvolvimento sustentável que alia propósito, impacto social e viabilidade econômica.
Ao se espalhar por diferentes regiões do Brasil, especialmente nas mais afetadas por crises econômicas, climáticas ou estruturais, esse tipo de empreendedorismo vem redesenhando relações, recuperando a dignidade de comunidades inteiras e gerando soluções inovadoras.
De acordo com o Sebrae, entre 2020 e 2023, o número de empreendimentos de impacto social cresceu mais de 22%. E, por trás desses dados, existem pessoas, histórias e soluções que desafiam a lógica tradicional do lucro pelo lucro.
O que é empreendedorismo social?
Empreendedorismo social é a prática de criar e desenvolver negócios que, ao mesmo tempo em que são financeiramente sustentáveis, têm como principal objetivo resolver problemas sociais e/ou ambientais.
Não se trata de assistencialismo, mas de um modelo que busca transformar realidades por meio de soluções de mercado que geram valor compartilhado.
Segundo o Sebrae, negócios de impacto social são aqueles formalizados por pequenos empreendedores.
Eles contribuem para transformar a realidade das populações menos favorecidas, focando em questões como inclusão social, sustentabilidade ambiental, acesso a direitos básicos e geração de renda.
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Quais são os três pilares do empreendedorismo social?
O modelo se sustenta em três pilares fundamentais:
- Impacto social e/ou ambiental positivo: o foco está na resolução de problemas sociais relevantes, como pobreza, fome, acesso à educação, saúde, moradia ou sustentabilidade ambiental.
- Sustentabilidade financeira: o empreendimento deve ser viável economicamente, ou seja, capaz de se manter sem depender exclusivamente de doações ou subsídios.
- Compromisso com a inovação e a gestão eficiente: os negócios sociais investem em soluções criativas, modelos de gestão modernos e tecnologias acessíveis.
Recuperação após as enchentes no RS: solidariedade que gera renda

As chuvas e enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024 deixaram um rastro de destruição. No entanto, também revelaram a força do empreendedorismo social como caminho para a reconstrução.
Cooperativas, ONGs e pequenos produtores, com o apoio de instituições como o Instituto Fome de Tudo e a Emater, conseguiram reerguer atividades produtivas e gerar impacto imediato.
A agricultora Sabrina Meireles Soares, da Coafchar, relata a perda total de sua produção após a enchente.
“Foi tudo embora. Ficamos sem chão, sem coragem, sem saber para onde olhar”, relembra. O apoio veio com insumos, técnica e, principalmente, acolhimento. “Eles nos deram de volta a possibilidade de sonhar. Ajudaram quem estava no campo e quem estava na cidade passando fome. Isso é empreendedorismo social: uma mão que levanta, outra que alimenta.”
Mais de 250 famílias foram beneficiadas com a reativação da produção de alimentos, que passou a abastecer cestas destinadas a populações em vulnerabilidade.
Onde o empreendedor social pode atuar?
Os campos de atuação são amplos e estão em plena expansão. Entre os principais setores estão:
- Agricultura familiar e agroecologia
- Educação e formação profissional
- Saúde comunitária
- Moradia popular
- Energia renovável
- Reciclagem e gestão de resíduos
- Tecnologia de impacto social
Também há espaço no setor urbano, com startups que atuam no combate ao desperdício de alimentos, mobilidade urbana inclusiva, economia circular e acesso a serviços financeiros.
Tecnologia como aliada do impacto
Um dos maiores exemplos atuais de inovação social é o Instituto Fome de Tudo, que criou um sistema de logística inteligente para evitar o desperdício de alimentos.
Descrito como um “Tinder da fome”, o aplicativo conecta supermercados, feiras e produtores com entidades que distribuem alimentos para populações em situação de vulnerabilidade.
Com essa tecnologia, mais de 9 milhões de refeições foram entregues, beneficiando 300 mil pessoas.
“Não é preciso produzir mais para acabar com a fome, mas sim combater o desperdício”, afirma a CEO Úrsula Corona.
Cultura e visibilidade: o papel da comunicação

A visibilidade também é parte do impacto. A atriz Úrsula Corona, também à frente do programa Vida de Merendeira, no canal Sabor & Arte, destaca o papel das profissionais que alimentam milhões de crianças na rede pública.
“Esse trabalho vai muito além do fogão. Alimenta, literalmente, o futuro do Brasil”, ressalta.
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Políticas públicas: entre o apoio e a ausência
Apesar dos avanços e resultados positivos, o empreendedorismo social ainda carece de apoio estruturado.
Segundo o socólogo Vinícius do Carmo, “o modelo rompe com a lógica tradicional do mercado, mas precisa de fomento para se consolidar: linhas de crédito acessíveis, incubadoras e regulação adequada”.
Marcelo Scafuro, da Fome de Tudo, reforça: “Boas ideias morrem sem suporte. Precisamos de articulação entre governos, setor privado e terceiro setor para multiplicar esse impacto”.
Impacto nacional
Um estudo do Datafolha, em parceria com FGV e Fundação Dom Cabral, revelou que, em 20 anos, os empreendimentos sociais beneficiaram 330 milhões de pessoas no Brasil — um número superior à própria população atual.
Em 2023, esses empreendedores mobilizaram R$ 1,7 bilhão, o que demonstra a força econômica do setor.
Um modelo de nação possível
O empreendedorismo social não é apenas uma alternativa viável. É um projeto de futuro. Em tempos de crise climática, ecoansiedade, desigualdades acentuadas e insegurança alimentar, esse modelo mostra que é possível alinhar sustentabilidade econômica com propósito e afeto.
Como resume a agricultora Sabrina Meireles: “A gente perdeu tudo, mas não perdeu a vontade. E agora, graças a esse apoio, estamos de pé de novo”.
Parte das informações desta matéria foram inspiradas no conteúdo publicado pelo Correio Braziliense. Para ler a versão original, acesse: correiobraziliense.com.br.
