Com a entrada em vigor da nova Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), prevista para maio de 2025, a saúde mental passa a ser oficialmente reconhecida como parte das diretrizes de segurança e saúde no trabalho.
Esse avanço representa um marco importante para todos os trabalhadores, mas tem um impacto ainda mais profundo sobre um grupo específico: as mães no trabalho.
A sobrecarga emocional, o duplo turno (trabalho + cuidados com os filhos) e a falta de acolhimento institucional tornam esse grupo especialmente vulnerável a riscos psicossociais.
Como as empresas estão se preparando para enfrentar esse desafio?
“A NR-1 não menciona as funcionárias mães de forma específica, mas é impossível não conectar os pontos quando falamos de riscos psicossociais. A falta de flexibilidade, especialmente no retorno da licença maternidade, é um fator que prejudica diretamente a saúde de muitas mulheres”, explica a jornalista e promotora de bem-estar no trabalho, Izabella Camargo.
Criadora do movimento pela Produtividade Sustentável, Izabella defende que o bem-estar dos profissionais é um ativo estratégico das empresas. E nesse contexto, a maternidade não pode ser ignorada.
O impacto da sobrecarga e da falta de acolhimento
É comum que mães enfrentem uma sobrecarga mental significativa no retorno ao trabalho. Privadas de sono, com imunidade baixa e diante de uma nova rotina intensa de cuidados com o bebê, elas esbarram em ambientes corporativos pouco sensíveis a essa fase da vida.
“Imagine uma pessoa que volta de um mês de férias e esquece a senha do computador. Agora pense em uma mulher que passou meses em um ritmo completamente diferente, com exigências extremas e sem espaço para adaptação. Isso também é um risco psicossocial”, pontua Izabella.
Esses riscos, que envolvem estresse, exaustão emocional, sentimento de culpa e ansiedade, agora devem ser mapeados formalmente pelas empresas, conforme previsto pela nova NR-1.
Realidade brasileira: o véu da invisibilidade das mães no trabalho

Apesar de algumas empresas, especialmente multinacionais, já contarem com iniciativas como creches internas e espaços para amamentação, a realidade brasileira é outra.
Segundo levantamento da FGV, 48% das mulheres deixam o mercado de trabalho após a chegada dos filhos.
“A maioria das empresas no Brasil não tem absolutamente nada para apoiar essa mulher no retorno ao trabalho. Pelo contrário, a cultura ainda penaliza a maternidade”, destaca a jornalista.
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O papel das lideranças na prevenção
Para Izabella, é preciso quebrar o silêncio sobre o tema. “As lideranças precisam, primeiro, querer falar do assunto. Sem disponibilidade para reconhecer a realidade, nenhuma mudança acontecerá.”
Ela reforça que medir é o primeiro passo para gerenciar. “Cada ambiente de trabalho tem um tipo de risco. A única forma de evoluir é mapear o que pode ser melhorado. Rodar pesquisas internas, garantir a segurança das informações e investir em letramento sobre saúde mental e assédio são caminhos fundamentais.”
Exemplos e inspirações
Entre as boas práticas, Izabella cita programas que já foram implementados por empresas como Honda e Bradesco, que oferecem suporte real a funcionárias que são mães. “Mas a cultura só muda no longo prazo”, ela alerta.
A atualização da NR-1 entra em vigor em 26 de maio de 2025, e a fiscalização com possibilidade de multas deve começar apenas em 2026. Ainda assim, Izabella provoca: “Você usa cinto de segurança para não levar multa ou para proteger sua vida?”
Uma mudança cultural em curso

A inclusão da saúde mental na NR-1 pode ser um divisor de águas na forma como as empresas tratam a maternidade.
Além de prevenir o adoecimento, acolher as mães também fortalece a cultura organizacional e reduz custos com afastamentos e rotatividade.
“Já sabemos que talentos pedem demissão por conta do ambiente, não por causa do salário. Que pessoas em presenteísmo comprometem a operação e que o plano de saúde é um dos maiores custos empresariais. As consequências já são conhecidas. Agora, precisamos falar sobre prevenção”, defende.
O que acontece quando ignoramos os riscos?
Ignorar os riscos psicossociais pode trazer danos severos não só à saúde das funcionárias, mas à reputação da empresa. “Além dos custos diretos, o impacto sobre a imagem da marca pode ser irreparável”, alerta.
Ela ainda reforça: “Promover conversas difíceis é uma forma de evitar vidas difíceis.”
Por onde começar?
Para quem deseja se antecipar à fiscalização e iniciar uma transformação real, Izabella recomenda um passo simples: investir em ações recorrentes de educação corporativa, como palestras, rodas de conversa e treinamentos.
“Temas como assédio, saúde mental, parentalidade e jornada dupla precisam deixar de ser tabu. O letramento emocional pode ser a vantagem competitiva que tantas empresas procuram.”
Neste Dia das Mães, mais do que flores e homenagens, o que as mulheres mães esperam é respeito, acolhimento e estrutura para seguir crescendo profissionalmente sem abrir mão de sua saúde e de sua família. E isso, agora, também é uma responsabilidade legal.
Como bem resume Izabella Camargo: “As possibilidades que chegam com a NR-1 atualizada podem ser a segurança do próprio negócio. E das vidas que o mantêm funcionando.”
Izabella Camargo é paranaense, mãe, jornalista, apresentadora, palestrante e promotora de saúde, bem-estar no trabalho e longevidade. É criadora do movimento pela Produtividade Sustentável, que busca ajudar profissionais e empresas a alcançarem seus objetivos sem sacrificar a saúde e os relacionamentos no caminho.
