Etarismo é um tema urgente e, ainda assim, pouco debatido dentro das empresas. Apesar da pauta de diversidade e inclusão ter ganhado espaço nos últimos anos, a discriminação por idade segue como um dos preconceitos mais normalizados do mercado de trabalho.
Em resposta a esse cenário, O Boticário lançou uma campanha provocativa e corajosa nas redes sociais, especialmente no LinkedIn, com a hashtag #OldToWork.
Inspirada no tradicional selo #OpenToWork — utilizado por usuários da plataforma que estão em busca de novas oportunidades — a proposta do #OldToWork é jogar luz sobre a realidade de mulheres com mais de 45 anos que continuam ativas, experientes e qualificadas, mas que enfrentam uma enorme barreira para se recolocarem profissionalmente.
Dados da Data8, empresa de estudos e pesquisas, reforçam a importância do tema: 70% das mulheres acima de 45 anos relatam dificuldades em se recolocar no mercado de trabalho.
Ainda segundo o levantamento, 35% dessas mulheres acabam empreendendo por necessidade, uma vez que não encontram espaço nas organizações formais.
Protagonismo feminino e provocação necessária

A liderança do movimento parte de dentro: Renata Gomide, vice-presidente de marketing do Grupo Boticário, foi a primeira a utilizar o selo #OldToWork em seu perfil do LinkedIn.
A iniciativa é um convite à reflexão sobre os vieses que perpetuam a ideia de que profissionais com mais idade são menos capazes ou menos adaptáveis.
A campanha vai além da visibilidade: o Grupo Boticário também anunciou um projeto de impacto voltado à recolocação de mulheres 45+ no mercado, oferecendo treinamento e capacitação e ainda conexões com oportunidades reais.
Trata-se de um movimento que alia representatividade à ação concreta, algo essencial quando falamos em diversidade etária.
O que é etarismo?
O etarismo é a discriminação com base na idade. No contexto profissional, ele se manifesta quando candidatos são preteridos por serem considerados “velhos demais” para certas posições ou quando profissionais mais experientes deixam de ser promovidos ou ouvidos em razão de sua idade.
Embora também afete jovens (em contextos onde falta experiência é confundida com incompetência), é na população com mais de 40 anos que o preconceito se intensifica.
Essa exclusão se reflete em piadas, estigmas e, principalmente, na dificuldade de permanência ou recolocação no mercado.
Etarismo na educação: um caso que ganhou repercussão nacional
Em 2023, um caso de etarismo viralizou nas redes sociais e chocou o país. Três estudantes do curso de Biomedicina de uma universidade particular em Bauru (SP) debocharam de uma colega de 40 anos, filmando e divulgando o vídeo com falas discriminatórias.
“Gente, quiz do dia: como ‘desmatricula’ um colega de sala?”, ironizou uma das jovens. A outra respondeu: “Mano, ela tem 40 anos já. Era para estar aposentada”. “Realmente”, disse a terceira, em tom de deboche.
O vídeo gerou revolta e discussão em todo o país, destacando como o etarismo também se manifesta em espaços que deveriam acolher a diversidade etária, como as universidades.
O caso levantou debates sobre a importância da empatia, do respeito à trajetória dos outros e da urgência de combater estereótipos relacionados à idade.
Consequências do etarismo: impactos reais e profundos
O etarismo pode gerar impactos emocionais e econômicos significativos. Profissionais afetados relatam baixa autoestima, sentimentos de exclusão, ansiedade e depressão.
No ambiente corporativo, o preconceito etário leva à perda de talentos experientes, à homogeneização das equipes e à repetição de erros que poderiam ser evitados com visões mais maduras.
Do ponto de vista econômico, a exclusão de profissionais 45+ do mercado representa desperdício de mão de obra qualificada, aumento da informalidade e pressão sobre programas de assistência.
Mulheres, especialmente, são as mais impactadas, seja por saírem do mercado para cuidar de filhos, seja pela dificuldade de retorno.
Etarismo e mercado de trabalho
O preconceito contra pessoas mais velhas não apenas marginaliza uma parcela da população economicamente ativa, como impede que as empresas se beneficiem da diversidade geracional.
Em um mundo complexo, equipes multigeracionais são mais criativas, assertivas e produtivas.
Para isso, é fundamental rever processos seletivos, avaliar a cultura organizacional e promover ações que incentivem a inclusão de profissionais com diferentes idades.
Além disso, flexibilidade, escuta ativa e programas de mentoria reversa são algumas das estratégias para fomentar um ambiente mais igualitário.
O que diz a lei sobre etarismo?

No Brasil, o etarismo pode ser enquadrado como discriminação e preconceito, o que é proibido pela Constituição Federal e por legislações específicas.
O Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003) garante os direitos das pessoas com 60 anos ou mais, e a Lei nº 9.029/95 proíbe a discriminação por motivo de sexo, origem, raça, cor, estado civil ou idade no acesso ao emprego ou sua manutenção.
Apesar disso, muitas dessas situações são sutis e, por vezes, difíceis de comprovar. Daí a importância de campanhas como a do Boticário, que colocam o tema em evidência e impulsionam mudanças na cultura das organizações.
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Iniciativas que inspiram
A campanha #OldToWork surge como um marco importante ao propor não apenas uma reflexão, mas uma nova narrativa.
Ao destacar o valor da maturidade e experiência, a marca convida outras empresas a repensarem seus critérios de contratação e promoção.
Mais do que uma ação de marketing, o movimento aponta caminhos para uma sociedade mais justa, plural e consciente.
Para as lideranças de RH, o momento é de acolher essa discussão com coragem e responsabilidade. Incluir profissionais acima dos 45 anos não é uma concessão: é um ganho para a cultura, para os resultados e para o futuro do trabalho.
