Em um cenário onde as mulheres estão cada vez mais presentes no mercado de trabalho, um tema que tem ganhado destaque e urgência é o cuidado com a saúde mental materna.
De acordo com Suzie Clavery, CHRO da TotalPass e fundadora da Employer Branding Brasil, a situação atual revela uma sobrecarga emocional e mental intensa entre as mães profissionais, principalmente após o período da pandemia.
“Cerca de 90% das mães enfrentam esgotamento mental, com 54% diagnosticadas com burnout”, afirma Suzie, destacando um quadro preocupante de exaustão física e psicológica.
O impacto da sobrecarga no bem-estar das mães no mercado de trabalho
Estudos recentes, como o relatório da ONG Think Olga, evidenciam que as mães no mercado de trabalho enfrentam dificuldades não apenas no âmbito físico, mas também no emocional.
Uma pesquisa apontou que 68% das mulheres relatam impacto negativo na carreira devido à maternidade.
As mães solo, por exemplo, são as mais afetadas, enfrentando a sobrecarga de tarefas domésticas e o estresse financeiro, o que agrava ainda mais sua saúde mental no trabalho.
A pesquisa também revela que 86% das mulheres consideram ter muita carga de responsabilidades.
“Essa sobrecarga, que muitas vezes é invisível, é um dos maiores desafios. A responsabilidade de conciliar carreira, vida doméstica e cuidados com os filhos gera um estresse emocional difícil de ser visto, mas profundamente impactante”, comenta Suzie.
Ela destaca que as empresas precisam desenvolver ambientes acolhedores e políticas que permitam que as mulheres se sintam suportadas em suas jornadas duplas de profissionais e mães.
Os fatores negativos no ambiente corporativo e a carga mental das mães

Entre os principais fatores que contribuem para a sobrecarga emocional das mães, a pesquisa de Think Olga aponta a insegurança financeira e a sobrecarga de trabalho como os maiores desafios.
“Cultura tóxica, falta de flexibilidade e líderes que não reconhecem as necessidades das mães no ambiente corporativo são fatores que tornam o cenário ainda mais difícil”, explica Suzie.
Curiosamente, apesar desses desafios, a presença de mães no mercado de trabalho pode trazer benefícios essenciais para as empresas.
De acordo com Suzie, as mães são mais produtivas e tendem a contribuir para um ambiente mais colaborativo.
“Pesquisas apontam que mulheres com filhos são mais produtivas, principalmente porque aprendem a gerenciar múltiplas responsabilidades, o que as torna mais eficientes no trabalho”, diz.
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A carga mental e suas repercussões
A “carga mental”, conceito que se refere à sobrecarga de tarefas cognitivas e emocionais, tem se tornado uma das principais preocupações entre as mulheres que são mães e profissionais. Suzie explica que, para muitas delas, o trabalho mental nunca para.
“É o esforço constante de planejar, organizar e gerenciar as tarefas cotidianas, sem que muitas vezes esse esforço seja reconhecido no ambiente de trabalho ou em casa. Esse trabalho mental pode ser mais cansativo que o trabalho físico”, revela Suzie.
Estudos do IBGE indicam que as mulheres gastam, em média, 9,6 horas a mais por semana em afazeres domésticos do que os homens.
Isso se reflete diretamente na saúde mental, com dados apontando que 45% das mulheres brasileiras apresentam transtornos como ansiedade ou depressão.
“É urgente que as empresas percebam o impacto dessa carga mental e adotem medidas para apoiar as mães”, afirma.
O papel das empresas e a evolução do mercado de trabalho

Suzie acredita que, embora algumas empresas já estejam tomando iniciativas para cuidar das mães trabalhadoras, o mercado ainda tem muito a evoluir.
“A escuta ativa e a implementação de políticas de flexibilidade, como horários e home office, são essenciais. Além disso, a cultura de apoio e a oferta de programas de apoio psicológico são fundamentais”, sugere.
Segundo ela, as lideranças devem adotar práticas mais empáticas, como garantir que as mães possam dividir as responsabilidades em casa e no trabalho de maneira justa.
“As empresas devem se engajar em criar um ambiente onde as mães possam equilibrar suas responsabilidades de forma saudável, sem o medo do julgamento ou da sobrecarga.”
Como o RH pode ajudar na construção de uma cultura inclusiva e saudável
O RH tem um papel crucial na construção de uma cultura organizacional que valorize o cuidado com a saúde mental materna.
Suzie enfatiza que, mais do que oferecer benefícios, o RH deve promover ações que realmente mudem a forma como a maternidade é vista nas empresas.
“Implementar políticas de igualdade, oferecer suporte contínuo às mães e proporcionar horários flexíveis são passos importantes. Além disso, a liderança precisa ser capacitada para reconhecer e combater o sexismo e garantir oportunidades iguais para homens e mulheres”, explica.
Para Suzie, é essencial também criar programas de mentoria e visibilidade para mulheres em cargos de liderança, o que pode ajudar a quebrar o estigma em torno da maternidade e abrir mais portas para as mães no mercado de trabalho.
Como combater o estigma da maternidade nas empresas?
Ainda existe um estigma em torno das mães no ambiente de trabalho, onde muitas vezes são vistas como menos comprometidas ou produtivas. Suzie alerta que é necessário desconstruir essa visão.
“Muitas mulheres enfrentam desafios de assédio moral, piadas e dificuldades na progressão de carreira por causa do estigma da maternidade”, observa.
Para quebrar esse estigma, é necessário um trabalho contínuo de conscientização, políticas de igualdade e um ambiente de apoio real às mães.
Transformações observadas nas empresas que investem no cuidado das mães

Empresas que investem no cuidado das mães colaboradoras percebem um retorno significativo em vários aspectos. Suzie destaca que há uma relação direta entre políticas que conciliam vida profissional e pessoal e a produtividade dos colaboradores.
“Investir em horários flexíveis, apoio psicológico e um ambiente inclusivo resulta em maior motivação, menor rotatividade e aumento da produtividade”, conclui.
Mensagem para Líderes de RH
Para finalizar, Suzie deixa uma mensagem poderosa para líderes de RH que ainda não sabem como começar a implementar ações concretas para apoiar as mães nas empresas:
“Comece com a escuta ativa. Não é preciso de grandes orçamentos ou projetos complicados. O simples é sempre eficaz. Ouça, co-crie e busque soluções que atendam às reais necessidades das mães trabalhadoras. Isso fará toda a diferença para a cultura organizacional e o bem-estar dos colaboradores.”
Em um mercado de trabalho cada vez mais dinâmico, a saúde mental materna precisa ser uma prioridade.
As empresas que se dispuserem a investir no bem-estar de suas colaboradoras não só ajudarão na manutenção de um ambiente de trabalho saudável, mas também colherão os frutos de uma maior produtividade e engajamento.
