Estive no CONCARH 2025, o maior congresso de RH do Sul do Brasil. Palcos bem produzidos, estandes cheios, salas lotadas. Mas o que me chamou atenção não estava no cenário estava nas entrelinhas.
Mais do que um encontro de profissionais, o CONCARH não foi apenas um evento. Foi um espelho. E como todo bom espelho, ele não mostrou apenas o que queremos ver.
Um reflexo nítido de um RH que tenta avançar, mas ainda carrega os pesos da burocracia, da superficialidade e da liderança desatualizada.
Ao mesmo tempo, encontrei vozes fortes, temas relevantes e discussões que merecem ser destacadas.
Se você não esteve lá, precisa entender o que está em jogo. E se esteve, talvez precise de ajuda para organizar as ideias e encarar o que não foi dito nos microfones.
Os temas centrais que escancararam o presente (e o futuro) do RH
Durante o congresso, ficou impossível ignorar a força de algumas verdades que atravessaram o evento de ponta a ponta.
O RH e a liderança não podem mais caminhar separados. Essa separação já não faz sentido.
RH que não influencia diretamente a qualidade da liderança está fora do jogo. E líderes que não entendem cultura, desenvolvimento e intencionalidade não sustentam times.
A nova régua é valor não presença física. Horas entregues, boa vontade ou carisma não bastam mais.
O critério agora é impacto gerado, evolução visível e contribuição sistêmica. Isso exige uma revisão profunda nos modelos de avaliação, feedback e carreira.
Desenvolver não é só treinar
Profissionais querem trilhas que façam sentido, com desafio real, clareza de futuro e um ambiente que os provoque a crescer.
O RH que continua operando como “entregador de capacitação” vai se tornar irrelevante.
Cultura virou sistema operacional
Sem rituais claros, combinados explícitos e símbolos fortes, a cultura se esfarela especialmente em ambientes híbridos.A cultura fraca gera ruído, desconexão e desperdício de talento.
A liderança do improviso está com os dias contados
Ficou evidente que líderes que ainda operam no “feeling” serão engolidos por quem lidera com método, consciência e coragem para enfrentar o que precisa ser dito.
Novidades que merecem atenção (e não só aplauso)

No meio de tanto conteúdo repetido com nomes novos, algumas novidades reais surgiram e valem ser destacadas:
Trilhas de carreira modulares
Elas despontam como alternativas à progressão vertical, que permitem evolução horizontal ou diagonal, de acordo com perfil e desejo. Isso muda o jogo na retenção.
People analytics com propósito
Finalmente dados sendo usados para prever riscos culturais, apoiar sucessões e sustentar decisões estratégicas e não só preencher dashboards.
IA no desenvolvimento humano
A IA já é realidade sendo aplicada para personalizar trilhas de aprendizado, mapear gaps de liderança e sugerir ações de crescimento com base em comportamento real.
É fato que hoje, não é todo mundo que quer ser promovido, mas quase todo mundo quer crescer. O foco então passou a ser na amplitude de competências e impacto gerado, e não apenas no cargo ocupado.
Assim, a trilha deixa de ser uma escada e passa a ser um mapa com rotas alternativas
Saúde emocional conectada à performance
Pela primeira vez vi painéis em que saúde mental não foi só pauta de “cuidado”, mas de desempenho organizacional.
Empresas começaram a conectar burnout com liderança tóxica, estresse crônico com falta de alinhamento de papéis e saúde emocional com segurança psicológica real não com discurso leve.
Além de virar lei, burnout, estresse e evasão de talentos estão abertamente sendo debatidos como sintomas de ambientes mal liderados e não apenas como temas de bem-estar.
Mentalidade de produto no RH
Cada dia mais está surgindo essa mentalidade em empresas que operam com entregas incrementais, foco no colaborador como cliente interno e rituais ágeis de construção cultural.
Essas inovações ainda estão emergindo, mas apontam para um RH mais maduro, mais intencional e muito mais estratégico.
Um olhar regional: o que vi de diferente no Sul do Brasil
Estar no CONCARH também foi oportunidade de observar algo que muitas vezes passa batido: o quanto o RH e a liderança do Sul têm características distintas do restante do país.
Uma cultura mais contida, mas com potencial profundo
A tomada de decisão tende a ser mais técnica e menos impulsiva. Mas isso também exige mais argumento e embasamento para sustentar mudanças.
O RH precisa provocar sem agredir e mostrar que inovação pode conviver com tradição.
Valorização da estabilidade
Empresas da região têm forte apreço por histórias longas e estruturas sólidas.
O desafio é equilibrar isso com a flexibilidade que o novo mercado exige. Sem adaptação, a solidez vira rigidez.
Ambientes familiares (às vezes, demais)
Muitas organizações operam com clima interno “de família”, o que pode ser positivo. Mas também esconde hierarquias engessadas, dificuldade em acolher o diferente e pouca oxigenação.
Diversidade, inovação e confrontos produtivos ainda são tabus em muitas empresas da região.
Menos exposição, muito resultado
O Sul tem cases incríveis de liderança, cultura e gestão de pessoas. Mas muitas dessas histórias ficam restritas à região.
Acho que falta visibilidade nacional. E o RH daqui precisa ocupar mais espaço não por vaidade, mas por relevância.
Baixo desemprego ≠ facilidade para contratar
Outro ponto que apareceu com força em várias conversas: encontramos hoje a menor taxa de desemprego dos últimos anos, chegando a menos de 3% em Santa Catarina e com isso, as empresas não preenchem suas vagas com qualidade.
Profissionais mais qualificados agora escolhem onde querem trabalhar. E descartam rapidamente empresas com liderança fraca, cultura tóxica ou propósito incoerente.
Reter sem desenvolver não funciona.
Abrir vaga com um clima ruim não atrai.
Oferecer benefícios sem respeito na liderança não convence.
Esse cenário exige que o RH atue como estrategista da atratividade organizacional. Isso significa parar de operar como recrutador e começar a atuar como arquiteto de cultura, confiança e desenvolvimento.
E agora, RH?

Voltei do CONCARH com ainda mais convicção de que não existe transformação verdadeira sem enfrentamento real.
Os desafios estão claros. Os dados já escancaram o que precisa ser feito. Agora, a pergunta é: o que VOCÊ vai sustentar na prática?
O RH que o mercado precisa é aquele que:
- Enfrenta o que está disfuncional;
- Desenha ambientes onde as pessoas crescem;
- Forma líderes com consciência e método;
- Provoca a cultura com intenção estratégica.
Porque no fim das contas, ou você lidera com coragem…Ou será substituído por quem lidera assim.
