Mesmo com o aumento da participação feminina no mercado de trabalho, a desigualdade salarial entre mulheres e homens persiste de forma significativa no Brasil.
Segundo o 3º Relatório de Transparência Salarial e Igualdade Salarial, divulgado em março de 2025 pelos Ministérios do Trabalho e Emprego (MTE) e das Mulheres, as mulheres brasileiras recebem, em média, 20,9% menos que os homens.
A média salarial masculina é de R$ 4.745,53, enquanto a feminina é de R$ 3.755,01.
Esse cenário revela uma desigualdade que afeta diferentes níveis hierárquicos e setores do mercado.
Mesmo entre profissionais com cargos semelhantes ou formação equivalente, a diferença persiste.
Nas funções de direção e gerência, por exemplo, mulheres recebem 73,2% dos salários dos homens.
Em cargos de nível superior, o percentual é de 68,5%. Já nas atividades administrativas, elas ganham 79,8% do valor pago aos profissionais do sexo masculino.
O que causa a desigualdade salarial?
Diversos fatores contribuem para a desigualdade salarial entre homens e mulheres. A cultura organizacional de muitas empresas ainda carrega estereótipos de gênero, o que influencia nas promoções, distribuição de tarefas e oportunidades de crescimento.
A maternidade também é vista como um fator de impacto, sendo muitas vezes interpretada de forma negativa por empregadores.
Outro ponto crítico é o acúmulo de responsabilidades fora do ambiente de trabalho. A maioria das mulheres brasileiras ainda assume, majoritariamente, os cuidados com os filhos, idosos e afazeres domésticos.
Essa sobrecarga limita o tempo e a energia que podem ser dedicados à carreira — especialmente quando a empresa não oferece apoio, como flexibilização de jornada ou benefícios voltados à parentalidade.
O que são desigualdades salariais?
As desigualdades salariais ocorrem quando dois ou mais profissionais exercem a mesma função, com o mesmo grau de responsabilidade e qualificação, mas recebem remunerações diferentes.
Essas diferenças podem ser motivadas por fatores como gênero, cor, idade, orientação sexual ou deficiência, e representam uma violação aos princípios da igualdade no trabalho.
A prática perpetua desigualdades históricas, reduz o poder aquisitivo das mulheres e limita seu acesso a melhores condições de vida.
Além disso, prejudica o desenvolvimento econômico como um todo, uma vez que impede a plena contribuição de uma parte significativa da força de trabalho.
Desigualdade maior para mulheres negras
O levantamento também evidencia que a desigualdade é ainda mais severa para mulheres negras.
A média salarial desse grupo é de R$ 2.864,39, o que representa apenas 47,4% do que recebem homens não negros (R$ 6.033,15).
Em edições anteriores do relatório, essa proporção era de 50,3%, indicando um agravamento da distorção.
Apesar disso, houve um avanço na inserção de mulheres negras no mercado formal. O número de trabalhadoras negras aumentou de 3,2 milhões para 3,8 milhões.
Além disso, caiu o número de empresas com até 10% de funcionárias negras, de 21.680 para 20.452 estabelecimentos.
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O que explica as diferenças salariais?

A diferença de salário entre homens e mulheres pode ser explicada, em parte, pela segregação ocupacional.
Homens tendem a ocupar cargos com maiores salários e maior poder de decisão. Já as mulheres são mais comuns em funções administrativas, educacionais e de cuidados, que têm remuneração historicamente mais baixa.
Além disso, mesmo quando atuam nos mesmos setores, as mulheres enfrentam barreiras para subir na hierarquia, conhecidas como “teto de vidro”.
Esse fenômeno impede o avanço profissional feminino, apesar de competência e resultados equivalentes.
Impacto econômico da desigualdade
Caso a remuneração das mulheres fosse igual à dos homens em funções equivalentes, a economia brasileira teria recebido R$ 95 bilhões a mais em 2024, segundo estimativas do relatório.
Esse valor evidencia o quanto a desigualdade não é apenas uma questão de justiça social, mas também um problema econômico.
Apesar das distorções, o relatório também aponta avanços. Houve aumento no número de empresas com diferença salarial de até 5% entre homens e mulheres.
Além disso, a participação feminina na massa total de rendimentos passou de 35,7% para 37,4% entre 2015 e 2024, reflexo do crescimento da presença feminina com carteira assinada, hoje representando 40,6% dos trabalhadores formais.
O que a CLT diz sobre igualdade salarial?
A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) estabelece, no artigo 461, que empregados que exercem a mesma função devem receber salários iguais, independentemente de sexo, idade, nacionalidade ou estado civil.
A lei exige que haja igualdade de remuneração para trabalho de igual valor.
A legislação também passou por atualizações recentes com a sanção da Lei da Igualdade Salarial, em julho de 2023.
Essa norma obriga empresas com mais de 100 empregados a divulgarem relatórios semestrais de transparência salarial e implementarem medidas como canais de denúncia, programas de diversidade e capacitação para mulheres.
Caminhos para a igualdade
Para avançar na redução das desigualdades salariais, especialistas apontam a importância de políticas públicas e privadas de promoção da equidade de gênero.
Entre as ações recomendadas estão:
- Auditorias salariais regulares;
- Programas de mentorias e liderança feminina;
- Licenças parentais compartilhadas;
- Transparência em promoções e aumentos salariais;
- Combate a vieses inconscientes nos processos seletivos e avaliações de desempenho.
Essas medidas ajudam a criar ambientes mais justos e inclusivos, nos quais todos os profissionais possam desenvolver seu potencial plenamente.
Conclusão
O 3º Relatório de Transparência Salarial revela um retrato nítido das desigualdades persistentes no mercado de trabalho brasileiro.
Apesar dos avanços, o fosso entre homens e mulheres permanece amplo, especialmente para mulheres negras.
A promoção da igualdade salarial exige compromisso coletivo, mudanças estruturais e a construção de uma cultura corporativa baseada na equidade e no respeito à diversidade.
A continuidade da divulgação desses relatórios e o cumprimento da legislação vigente são passos fundamentais para que o país avance em direção a um mercado de trabalho mais justo, produtivo e representativo.
