Vou pedir licença para começar este artigo contando uma história pessoal. Sou uma mulher que fez a transição de carreira da área de humanas, um campo predominantemente feminino, para a tecnologia.
Escolhi o SEO (Search Engine Optimization), um segmento ainda dominado por homens. Essa mudança me fez refletir sobre os desafios e oportunidades para mulheres na tecnologia.
Segundo uma pesquisa realizada pela Serasa Experian, em 2024, menos de 1% das mulheres trabalham com tecnologia no Brasil.
Meus primeiros passos em direção ao universo do SEO foram dados em 2010, quando esse percentual, provavelmente, era ainda pior.
Tudo começou com a participação em eventos, um deles o UaiSEO que, apesar de ter contado com palestrantes 100% masculinos, tinha nos bastidores mulheres.
Muitas delas, integrantes de outros dois movimentos, o LuluzinhaCamp e o SEO de Saia. Estes, sim, dominados e protagonizados por mulheres,
Não à toa, entre as lembranças que tenho, ficou a experiência de estar entre pessoas sempre dispostas a partilhar, dividir e impulsionar um mercado de SEO e tecnologia melhor.
Sem saber na época, alguns anos depois, eu também seria uma das beneficiadas. Foi por meio de parte do que aprendi nesse ecossistema que migrei de profissão e pude fundar a minha agência e consultoria.
Entretanto, quando me vi oficialmente empreendendo na área, não tive a oportunidade de encontrar ou conhecer outras mulheres à frente de agências no mesmo setor.
Não precisamos de muito esforço para entendermos que esse tem sido o caminho e a história das mulheres na tecnologia: mesmo sendo precursoras em diversos avanços ou possuindo mais qualificação, seguimos sendo excluídas dos melhores cargos, das boas negociações, dos palcos e dos registros históricos.
Grandes feitos em meio a estatísticas desfavoráveis
Segundo a Brasscom, no setor de TIC, as mulheres superam os homens em qualificação para cargos de diretoria e gerência: 9,9% delas têm pós-graduação, ante 8,2% dos homens. Mesmo assim, seguimos sub-representadas.
Em 2022, apenas 22% das pessoas que concluíram cursos em ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) eram mulheres.
Apesar disso, a história da tecnologia foi construída também pelas mãos de mulheres pioneiras.
Uma delas é Ada Lovelace, reconhecida como a primeira programadora do mundo, responsável por desenvolver o primeiro algoritmo para ser processado por uma máquina.
Grace Hopper foi outra pioneira na programação de computadores, desenvolvendo a primeira linguagem de programação de alto nível, a COBOL, e introduzindo o conceito de depuração de software.
Podemos falar, ainda, de outros nomes marcantes como o da atriz e inventora Hedy Lamarr, que, em um dueto de piano, em 1940, foi capaz de desenvolver uma tecnologia de salto de frequência que serviu de base para a criação do Wi-Fi, GPS e Bluetooth.
Um ponto que não pode passar batido na história de Lamarr é o fato de, por questões políticas e sexistas, a solução não ter sido utilizada na época e, quando entrou em vigor, a patente não foi reconhecida.
Por isso, ela não recebeu nenhum valor pela invenção.
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E as mulheres na tecnologia brasileiras?
Refletindo sobre esse constante apagamento histórico, é fundamental nos questionarmos: e as grandes mulheres da tecnologia no Brasil? Onde estão? Quem foram as pioneiras? Quais pesquisas estão desenvolvendo ou quais contribuições fizeram ao país?
Confesso que não foi fácil encontrar respostas, seja via Google ou ChatGPT. Pesquisar sobre mulheres na tecnologia no Brasil exige garimpo.
Alguns destaques contemporâneos surgiram com um pouco mais de facilidade, como o da cientista Jaqueline Goes de Jesus — mulher negra que liderou o primeiro sequenciamento genético do coronavírus no Brasil — e o de Nina da Hora, cientista da computação e ativista da diversidade, que pesquisa algoritmos e o impacto racial das tecnologias.
Mas, à medida que retrocedemos no tempo, menos histórias temos. Sabemos que parte disso é devido à pouca representatividade, mas também sabemos que a outra parte é consequência da nossa invisibilização.
Por isso, a importância de citar algumas delas aqui.
Brasileiras que abriram caminhos na tecnologia
A história da tecnologia no Brasil também foi escrita por mulheres que desafiaram padrões, romperam barreiras e deixaram um legado de inovação e coragem.
Mesmo em contextos marcados por desigualdades de gênero e raça, essas pioneiras transformaram áreas como eletrônica, computação, física e inteligência artificial com suas contribuições fundamentais.
A seguir, conheça algumas dessas mulheres que pavimentaram o caminho para as próximas gerações na ciência e na tecnologia:
1. Luzia Rennó Moreira (Sinhá Moreira)
Foi pioneira na eletrônica no Brasil. Após se separar de seu marido, um embaixador, trouxe do Japão conhecimentos técnicos e educacionais que a levaram a fundar, em 1959, em Santa Rita do Sapucaí (MG), a primeira escola técnica de eletrônica da América Latina. Seu trabalho transformou a região no que hoje conhecemos como o “Vale da Eletrônica”.
2. Edith Ranzini
Participou da equipe responsável pelo desenvolvimento do “Patinho Feio”, o primeiro computador projetado e construído no Brasil, em 1972.
Sua atuação foi essencial no desenvolvimento de sistemas de telecomunicações e informática no país.
3. Sônia Guimarães
Primeira mulher negra brasileira doutora em Física, especialista em semicondutores. Professora no ITA, ela abriu caminho para que mais mulheres negras pudessem ingressar e permanecer no ambiente científico e tecnológico.
4. Karin Breitman
Uma das primeiras brasileiras a participar do W3C (World Wide Web Consortium), ajudando a definir padrões para a internet. Também foi Chief Scientist na Dell EMC e liderou projetos de Inteligência Artificial e Big Data.
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Livro registra Mulheres na Computação

Um documento importante que está disponível é o e-book da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), chamado Mulheres na Computação no Brasil: histórias e memórias.
Organizado por Alice Fonseca Finger, Aline Vieira de Mello, Amanda Meincke Melo e Clevi Elena Rapkiewicz, o livro conta a história de oito mulheres com participações importantes na história da tecnologia no Brasil, sendo algumas delas as primeiras a entrarem em cursos de tecnologia na década de 1970. No livro estão:
- Camila Achutti: referência no letramento digital feminino, é fundadora da MasterTech e da ONG SOMA, com foco em inclusão e educação tecnológica. Também foi destaque na Forbes Under 30 e indicada como Executiva Revelação pela ANEFAC.
- Claudia Bauzer Medeiros: professora da Unicamp, é uma das maiores especialistas brasileiras em banco de dados e ciência de dados, com forte atuação em ciência aberta e projetos multidisciplinares, além de ser ex-presidente da Sociedade Brasileira de Computação (SBC).
- Cláudia Werner: professora da UFRJ e referência em engenharia de software, foi a primeira mulher premiada no Simpósio Brasileiro de Engenharia de Software (SBES) e atua fortemente na formação de pesquisadoras em TI.
- Glória Guimarães: executiva com carreira consolidada no setor público e privado, foi a primeira mulher a presidir o SERPRO, atuando na modernização de serviços públicos digitais e na promoção da participação feminina em TI.
- Liane Tarouco: considerada a “mãe da internet no Brasil”, é pioneira em Redes de Computadores e Informática na Educação, com atuação fundamental na criação da Rede Nacional de Pesquisa (RNP) e no desenvolvimento de livros didáticos sobre comunicação de dados.
- M. Cecília C. Baranauskas: pesquisadora da Unicamp, é destaque em interação humano-computador e informática na educação, sendo precursora em políticas públicas para a inclusão digital e no design participativo de sistemas interativos.
- Silvana Bahia: co-diretora da Olabi e criadora do PretaLab, é ativista pela inclusão de mulheres negras na tecnologia e inovação, promovendo formação e acesso ao mercado para mulheres negras e indígenas no Brasil.
- Valéria Menezes Bastos: pesquisadora e professora, tem uma trajetória marcada pela defesa da diversidade na computação e pela atuação em políticas de inclusão, com foco na democratização do acesso às tecnologias.
O papel das empresas na construção de um futuro mais justo

Um grande espaço deste artigo foi dedicado a registrar os feitos de mulheres na tecnologia. A intenção foi proposital para que, de alguma maneira, possamos ter mais histórias e documentações.
Uma pequena ação para que outras mulheres como eu, ao fundarem suas empresas, não tenham dificuldade de encontrar trajetórias semelhantes e possam, a partir disso, também construir ações reais para mudar este cenário, que segue sendo extremamente desigual e repleto de vieses.
As STEMs (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) moldam as estruturas sociais e econômicas do mundo contemporâneo.
Se as mulheres não tiverem acesso a essas áreas, seguiremos perpetuando um ciclo de desigualdade e apagamento.
Além disso, as pesquisas e os dados nos alertam: mulheres têm 30% menos chances de serem recomendadas para cargos de liderança por sistemas de recrutamento baseados em inteligências artificiais, conforme apontou uma pesquisa da MIT Technology Review.
Esse resultado é apenas um reflexo de um mundo programado predominantemente por homens.
Por isso, a permanência e o fortalecimento de políticas de diversidade precisam ser valorizadas. Não só por uma questão de responsabilidade, mas também pelos impactos positivos em negócios, como:
- Aceleração da inovação e criatividade;
- Retenção de talentos;
- Melhoria da reputação e imagem corporativa;
- Impacto positivo nos resultados financeiros.
Para este último tópico especificamente, há diferentes pesquisas que mostram que a diversidade nas empresas também está ligada a um melhor desempenho financeiro.
Uma delas é a da McKinsey & Company, que revelou que empresas com diversidade étnica e cultural têm 36% mais chances de serem mais rentáveis do que a média de suas concorrentes.
Em resumo, as políticas de diversidade e inclusão não apenas promovem justiça social, mas também contribuem significativamente para o sucesso e a sustentabilidade das empresas no mercado competitivo atual.
