A geração Z e o mercado de trabalho estão em constante transformação — e os microturnos são uma das tendências mais marcantes desse novo cenário.
Formada por jovens nascidos entre 1997 e 2012, essa geração cresceu conectada à tecnologia, imersa em informações e atenta às pautas sociais e de saúde mental.
Agora, à medida que esses profissionais ingressam (ou se consolidam) no mundo do trabalho, eles também o remodelam.
Os microturnos — jornadas curtas de até seis horas — ganham força como alternativa viável para conciliar trabalho, estudo, múltiplas ocupações e uma vida mais equilibrada.
Segundo um relatório global da Deputy, plataforma de gestão de trabalho que usa inteligência artificial, 51,5% dos profissionais que optam por esse modelo pertencem à Geração Z.
O estudo analisou 41 milhões de turnos e 278 milhões de horas trabalhadas por cerca de 430 mil profissionais. A tendência, no entanto, extrapola as faixas etárias e começa a conquistar outros perfis, como os Baby Boomers e pais com filhos pequenos.
Como é a Geração Z no mercado de trabalho?
A Geração Z entra no mercado de trabalho com características muito diferentes das gerações anteriores. Eles valorizam flexibilidade, autonomia e propósito no trabalho.
Segundo um levantamento da Deloitte com jovens profissionais de todo o mundo, 75% dos Gen Zs afirmam que preferem trabalhar em empresas que priorizam bem-estar e qualidade de vida, mesmo que isso implique uma remuneração menor.
Outro dado que chama atenção: 44% dos jovens da geração Z dizem que já recusaram ofertas de emprego ou pediram demissão por conta do desequilíbrio entre trabalho e vida pessoal.
Isso mostra que, mais do que uma demanda pontual, estamos diante de uma mudança estrutural na forma como o trabalho é percebido por essa geração.
O que a Geração Z pensa sobre emprego?
Para os jovens, o emprego não deve ser uma prisão. Eles não querem viver apenas para trabalhar — e os microturnos se encaixam perfeitamente nesse ideal.
Entre as mulheres da Geração Z, 68% acumulam empregos, tentando equilibrar as contas em meio à inflação e à necessidade de cuidar de familiares. Entre os Millennials, 25% também seguem essa estratégia, segundo os dados da Deputy.
A crescente busca por turnos mais curtos também se explica pelo aumento da informalidade e do trabalho por projetos. A chamada Gig Economy (economia dos bicos) ainda é a principal via de inserção profissional para muitos jovens.
No entanto, os microturnos oferecem uma alternativa com mais previsibilidade, segurança e, muitas vezes, com vínculo formal.
Além disso, o relatório da Deputy indica que o modelo é mais popular em setores como hospitalidade, serviços e varejo, onde há maior possibilidade de organizar escalas flexíveis.
Mas já começa a avançar em áreas tradicionalmente masculinas, como logística, e até no setor de tecnologia.
O que a Geração Z busca no mercado de trabalho?
Autonomia, flexibilidade de horário e tempo livre para viver. Essas são as três prioridades da Geração Z ao buscar um emprego, de acordo com diversas pesquisas recentes de mercado, como as da Gallup e da McKinsey.
Nesse contexto, o microturno aparece como um modelo ideal para que os jovens:
- Estudem e aprendam novas habilidades enquanto trabalham
- Cuidem da saúde mental e evitem o burnout precoce
- Tenham tempo para outros projetos ou compromissos pessoais
- Acumulem experiências profissionais variadas sem sobrecarga
Esse desejo por liberdade também está relacionado a uma nova visão sobre sucesso.
Para boa parte da geração Z, sucesso não é sinônimo de subir a escada corporativa a qualquer custo, mas sim de ter equilíbrio, senso de propósito e liberdade para decidir o rumo da própria carreira.
Qual o desafio da Geração Z frente ao mercado de trabalho?

Embora tenha força para propor transformações, a Geração Z ainda enfrenta obstáculos para consolidar essas mudanças. Entre os principais desafios estão:
- Precarização e falta de direitos: muitos microturnos ainda operam na informalidade, sem garantias trabalhistas.
- Baixa remuneração: especialmente entre as mulheres, há uma concentração nos setores com menor salário médio.
- Desconfiança geracional: parte das lideranças mais antigas ainda associa horários reduzidos a baixa produtividade.
- Falta de políticas estruturadas: poucas empresas têm regulamentações claras para esse tipo de jornada.
Para reverter esse cenário, especialistas apontam que é necessário repensar a legislação trabalhista e ampliar o acesso a benefícios mesmo em jornadas reduzidas.
Também é fundamental que líderes e RHs se abram para modelos híbridos e mais personalizados.
A lógica dos microturnos na tecnologia
No setor de tecnologia, os microturnos já existem há algum tempo — mas com motivações diferentes.
Segundo Paul Farnsworth, presidente da Dice, plataforma de carreiras em tecnologia, muitos profissionais da área usam jornadas curtas e foco pontual como forma de aprendizado e adaptação.
“Eles aprendem uma nova linguagem, contribuem com projetos específicos e depois mudam de foco. Isso é quase um microturno de carreira”, explica. A prática é comum especialmente entre recém-formados ou egressos de bootcamps, que precisam equilibrar aprendizado, trabalho e renda.
Para Farnsworth, os microturnos são um modelo eficaz para ganhar experiência prática e explorar novos caminhos sem comprometer a saúde mental. “Com o avanço da IA, a demanda por adaptação constante só cresce. Modelos mais leves são uma resposta a essa pressão.”
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O futuro do trabalho é flexível — e mais humano

O relatório da Deputy prevê que empresas que adotarem modelos de trabalho flexíveis terão mais chances de atrair e reter talentos nos próximos anos.
Além de responder à demanda dos jovens, essas organizações podem impulsionar a economia de forma significativa: até 10% do PIB americano (ou cerca de US$ 2,1 trilhões, segundo a análise da plataforma).
No Brasil, o avanço pode ser mais lento devido à complexidade da legislação trabalhista. No entanto, iniciativas como bancos de horas, escalas personalizadas, job sharing e trabalho remoto com foco em entregas já mostram que há espaço para inovação.
“O profissional remoto já opera com a lógica dos microturnos”, afirma Martincevic. “Ele pára para levar o filho à escola, volta, responde e-mails, resolve pendências domésticas e encerra o expediente mais tarde. A diferença é que agora isso pode ser formalizado e otimizado com ajuda da tecnologia.”
Para ela, o futuro do trabalho será construído a partir de três pilares: flexibilidade, inteligência artificial e inclusão.
“Empresas que entenderem isso poderão acessar talentos até então invisíveis: mães solo, estudantes, cuidadores, pessoas com deficiência. Não é sobre trabalhar menos, mas sobre trabalhar melhor e viver com mais dignidade.” — Martincevic, CEO da Deputy.
