Carreira não linear: o que acontece quando a trajetória profissional não segue o script

Uma carreira não linear é uma trajetória profissional que se afasta do modelo tradicional estável, caracterizada por mudanças e adaptações contínuas.
10 min. de leitura
carreira profissional

Minha trajetória é um bom exemplo de carreira não linear. A primeira vez que mudei de área foi para fazer exatamente o que eu já fazia — mas em uma indústria completamente diferente.

Eu escrevia sobre tecnologia e telecomunicações para o mercado corporativo. Fiz isso por mais de uma década. 

Passei por títulos clássicos, como a CRN (a maior revista de canais no Brasil e no mundo) e o Informática Hoje, que talvez tenha sido a publicação de tecnologia mais longeva do país.

Tudo mudou quando, em 2010, entrei na Editora Abril. Lá, comecei a escrever sobre gestão de pessoas. 

Um salto lateral que, com o tempo, acabou virando promoção. Cresci, assumi as marcas VOCÊ S/A e VOCÊ RH. 

Em 2018, publicamos uma capa sobre A nova carreira, que tinha menos a ver com escalar os degraus corporativos e mais com participar de projetos e se envolver em experiências de trabalho variadas. 

Os movimentos nem sempre eram para cima — eram laterais, diagonais, circulares.

Era o começo das carreiras não lineares: um caminho profissional que não seguia a linha tradicional de cargos iniciais, gerência, diretoria e aposentadoria. 

Em vez disso, faz ziguezagues. Inclui reviravoltas, reinvenções, pausas.

Na época, ainda era cedo para muita gente entender o que isso significava. Eu mesma não tinha consciência de que estava embarcando nessa tendência. Era o início de uma mudança no mercado de trabalho que ganharia força nos anos seguintes.

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O que caracteriza uma carreira não linear

profissional planejando sua gestão de carreira|profissionais reunidos representando gestão de carreira

No final de 2018, fui abordada por uma pessoa para participar de um processo seletivo no Gympass (hoje Wellhub). 

Nunca tinha trabalhado em uma empresa, apesar de sempre ter escrito sobre elas. Colecionava quase 20 anos de jornalismo corporativo — e havia chegado a hora de experimentar esse mundo por dentro.

Entre lágrimas, deixei a redação e parti para a segunda mudança de carreira. Entrei em 2019, quando o Gympass, apesar de existir há sete anos, ainda era pouco conhecido fora do seu nicho. 

Fizemos um trabalho que colocou a startup no radar do setor, dos clientes e da imprensa. Gympass virou referência de negócio.

Mesmo em um cargo de direção, eu ainda me sentia jornalista. Afinal, tinha sido isso o tempo todo até ali.

Até que aconteceu a terceira, a quarta, a quinta troca de carreira. Vieram a mudança para Nova York, a pandemia, a saída do Gympass, a criação da revista Et Cetera (do grupo BMI), e depois a Think Work. 

E, mesmo com a minha própria empresa, continuo acrescentando gig works, como quando fui correspondente da Folha de S. Paulo em Nova York, acompanhando o ministro Fernando Haddad na Semana do Clima.

Isso é o que caracteriza a carreira não linear:

  • Trocar de indústrias (de tecnologia para RH)
  • Mudar de papéis (de repórter para assessora de imprensa)
  • Começar uma nova carreira (de executiva a professora)
  • Acumular diversos trabalhos ao mesmo tempo

Até sabático entra nessa conta.

Aprendi com a futurista Lígia Zotini, fundadora do Voicers, que a “carreira slash” é outro sinal dos tempos: esse modelo em que vamos somando papéis, interesses e experiências. 

Um acúmulo de vivências que não cabem mais em um cargo só. Hoje, me vejo como jornalista/empreendedora/colunista/palestrante/curadora de conteúdo/LinkedIn Top Voice. Talvez, daqui a pouco, seja outra coisa também.

Por que a carreira não linear virou regra

O modelo tradicional — escola, faculdade, estágio, carreira ascendente, estabilidade, aposentadoria — já não explica a realidade de quase ninguém. 

O trabalho mudou. As empresas mudaram. A economia mudou. E as pessoas também.

Hoje, os profissionais acumulam funções, atuam em projetos multidisciplinares e respondem a diferentes chefes, numa hierarquia cada vez mais fluida. 

Com o avanço da tecnologia, cargos somem ou se transformam em questão de anos.

Vivemos ciclos de carreira cada vez mais curtos. Mesmo após uma promoção, muita gente sente que já não tem mais desafio e quer fazer outra coisa. 

Com a chegada da geração Z às empresas e a cultura acelerada das startups, esse imediatismo se intensifica.

Segundo o Fórum Econômico Mundial, a geração Z deve trabalhar para 18 empregadores diferentes e fazer pelo menos seis transições de carreira ao longo da vida. 

Para comparação, os baby boomers passaram por seis empregos — geralmente dentro da mesma área. Esse novo normal não é exclusividade dos jovens. 

A transversalidade das competências, o crescimento do trabalho independente, a instabilidade no emprego e as mudanças culturais estão empurrando todos nós para trajetórias menos previsíveis — e mais improvisadas.

Hoje, o que sustenta uma carreira é a capacidade de adaptação. 

Veja também:

Habilidades para navegar na carreira não linear

Quando olho para trás, percebo que nenhuma das minhas mudanças (com exceção da criação da Think Work) foi realmente planejada. 

Elas foram acontecendo porque eu estava atenta, disposta e com repertório suficiente para encarar cada nova etapa.

As competências essenciais para prosperar em uma carreira não linear são aprendizado constante, pensamento crítico e curiosidade, resolução de problemas em contextos complexos e ambíguos, boa comunicação e relacionamentos.

Basicamente, você precisa aumentar sua empregabilidade. Isso significa ser excelente no que faz, saber se “vender” bem e cruzar habilidades com novas oportunidades. 

Talvez essa seja a parte mais difícil. E para quem está nesse mar de incertezas e mudanças, algumas dicas:

  • Pratique o desapego de rótulos e cargos fixos;
  • Invista em habilidades transferíveis: escrita, comunicação, análise crítica, escuta, negociação;
  • Construa uma rede que vá além do seu setor atual;
  • Identifique suas habilidades e aplique-as em outros contextos e indústrias
  • Aprenda constantemente e identifique tecnologias e tendências que podem impactar seu trabalho;
  • Reflita sobre o que é valor para você: tempo, liberdade, segurança, reconhecimento.

Hoje, a Think Work me paga com as moedas mais caras do mercado: tempo e flexibilidade. 

Trabalho de onde quero, nos horários que funcionam para mim. Morando fora do país e com pais octogenários no Brasil, essa liberdade, neste meu momento de vida, é vital para mim.

Mas, e se a Think acabar?

Sim, eu penso sobre isso – todo empreendedor pensa. E me pergunto: Onde eu trabalharia? Para fazer o quê? Quem me contrataria?

A resposta é: não sei. Essa é a natureza da carreira não linear. A gente desconhece onde vai dar. Só sabe que vai mudar.

E isso exige mais do que um bom currículo. Exige reinvenção, que passa por introspecção, autoconhecimento, maturidade e confiança.

Uma bússola para a carreira não linear

crescimento na carreira

A maior dificuldade de quem vive uma carreira não linear é identificar onde suas habilidades podem ser reaproveitadas. 

Um temor é deixar escapar boas oportunidades em áreas que não conhecemos muito bem. Por exemplo, um estudante de psicologia poderia usar suas habilidades em designer de experiência do usuário (UX), mas não é um caminho óbvio.

Essa trama complica ainda mais quando começamos a olhar também para as soft skills.

A inteligência emocional, a criatividade e adaptabilidade são competências cada vez mais valorizadas em um mundo entregue às máquinas, especialmente às inteligências artificiais.

O último “slash” que eu adicionei à minha lista foi artista. Demorei para ter consciência que minha habilidade de desenhar e pintar muitas vezes foi decisiva para definir capas das revistas, a criar o logo da Think Work, ou até mesmo a gerir projetos.

Como não temos caixinhas prontas, é preciso exercitar a mente exploratória no processo de descoberta de novas funções.

Recentemente, testei o Career Dreaming, uma ferramenta do Google que pode auxiliar nesse ponto (ainda indisponível no Brasil). 

Você responde algumas perguntas e vai adicionando tudo o que sabe fazer: entrevistar, escrever, pintar, pensamento crítico, resolução de problemas etc.

A partir disso, o site apresenta um mapa de possibilidades profissionais para quem não sabe por onde recomeçar. Achei útil. Às vezes a gente só precisa visualizar o que poderia fazer para começar a considerar de verdade.

O papel do RH

Dicas para processo de seleção de pessoas

Não é que a carreira perdeu a lógica. Mas ela deixou de seguir uma lógica única, até então, enraizada no mercado.

O modelo tradicional, com uma trajetória linear e baseada nos degraus de uma hierarquia, ainda é a base de muitas organizações, mas já não satisfaz as novas demandas do mundo do trabalho. 

O resultado é um desencontro crescente entre o que as pessoas esperam e o que as empresas oferecem — uma lacuna que se materializa em índices altos de rotatividade, desmotivação e perda de produtividade.

Não à toa, dar vazão ao crescimento de carreira esperado pelos funcionários está entre os 10 principais desafios do RH para 2025, junto com atrair talentos e aumentar a produtividade dos empregados, segundo pesquisa da Think Work.

Isso exige uma mudança de mentalidade nas empresas. O RH precisa repensar as formas de trabalho, a construção de projetos e os movimentos internos, criando possibilidades que não dependam exclusivamente de promoções ou da troca de cargos. 

É fundamental considerar uma força de trabalho cada vez menos exclusiva, menos permanente — e mais compartilhada, fluida, rotativa.

Um sinal dessa mudança é que uma em cada quatro organizações ouvidas na mesma pesquisa da Think Work pretende recrutar profissionais para atuarem em projetos específicos.

Esse tipo de modelo de carreira, no entanto, ainda é pouco comum entre grandes companhias brasileiras. O movimento, embora tímido, aponta para uma necessidade de experimentação.

Entre os projetos inscritos no Prêmio Think Work Innovations, algumas iniciativas já apontam para caminhos mais contemporâneos. 

Entre elas, estão os planos de desenvolvimento focados em acelerar carreiras, novas formas de comunicar as oportunidades dentro da organização e mudanças significativas nos processos de avaliação de desempenho.

Ainda assim, das 12 categorias avaliadas no prêmio, a carreira é uma das mais atrasadas em inovação.

Criar desenhos mais modernos permitiria acomodar interesses diversos — como os de profissionais que não desejam seguir o caminho da liderança tradicional. 

É hora de valorizar o envolvimento em projetos, incentivar o intraempreendedorismo e enxergar as pessoas para além do organograma. Ir além do cargo.

Olhar habilidades, disposição para compartilhar conhecimento, influência positiva, criatividade, capacidade de entrega e superação de expectativas.

Em um mundo no qual as carreiras não seguem mais linha reta, o RH precisa virar mais laboratório e menos cartório.

Carreira não linear é o novo normal

Carreiras não lineares não são modinha. São respostas às transformações aceleradas do mundo do trabalho. São uma forma de continuar evoluindo mesmo quando o caminho não é claro.

Essa trajetória exige coragem, mas também preparação. Um bom currículo ajuda, mas não sustenta sozinho. 

É preciso cultivar habilidades, repertório, bons contatos e uma dose de leveza. Afinal, se a gente vai mudar de rota algumas vezes, melhor fazer isso com um pouco de humor.

E, acima de tudo, lembrar: a bússola da carreira não está no cargo. Está em você.

Jornalista especializada em negócios, inovação e gestão de pessoas. É fundadora e CEO da Think Work Lab, uma plataforma de pesquisas, conteúdos e eventos de gestão de pessoas, e criadora do prêmio Think Work Innovations, que reconhece práticas inovadoras no ambiente corporativo. Ao longo da carreira, desenvolveu projetos que conectam criatividade, resultados de negócio e desenvolvimento humano.

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